sábado, 27 de junho de 2026

​Capítulo 4: A Chave Cega

Era madrugada e ela estacionou o carro sob a sombra de uma árvore grande, bem na hora em que o movimento da rua já tinha sumido todo e não se ouvia mais nenhum barulho na vizinhança. A rua deserta estava em um breu completo, e a escuridão tomou conta de tudo assim que os faróis foram apagados.

No banco do carona, a pasta de couro antiga, que recebera como sua herança, parecia pesar uma tonelada. No pulso esquerdo, ela usava o velho relógio dele, cujo tique-taque firme era o único som a rivalizar com a sua própria respiração. 

Dentro da pasta, não havia documentos, apenas uma chave de latão pesada e totalmente lisa. Uma chave cega, feita para não abrir porta nenhuma, mas que poderia destravar um segredo guardado há anos.

​Ela respirou fundo, sentindo o suor frio colar os fios de cabelo na testa. Não deveria estar ali. Mas a última mensagem recebida em seu celular, vinda de um número desconhecido, trazia apenas uma coordenada geográfica e uma frase que seu pai repetia como um mantra antes de sumir por semanas: "O que está fincado na pedra não cede ao vento".

​Ao sair do carro, encarou o condomínio cinzento. Era um bloco isolado, cercado por um descampado tomado pelo mato que parecia não ter fim. No prédio não havia porteiro. A portaria era apenas uma porta de vidro simples, sem sofisticação alguma. Ela girou a chave comum na fechadura da entrada e empurrou.

​O interior era despojado, quase austero. Não havia elevador. Ela caminhou pelas escadas até o primeiro andar, os passos ecoando no piso de ardósia verde-escuro que contrastava com as paredes bege e sem quadros. O corredor era curto, terminando na porta do apartamento.

​Não havia campainha. Com as mãos trêmulas, ela abriu a pasta de couro, retirou a chave cega e, por puro instinto, aproximou-a da fechadura de ferro. Ela não precisou introduzi-la; o metal da porta reagiu com um estalo magnético e pesado, e a maçaneta girou sozinha.

​Ela empurrou a porta devagar. A sala simples estava completamente às escuras, exceto por uma única tela de computador ligada ao fundo. Na tela, uma imagem de satélite brilhava em tempo real, focada exatamente na varanda rosa-pêssego de uma casa antiga erguida sobre pedras. 

No centro do visor, um cursor piscava sobre uma mensagem recém-digitada: Você demorou para voltar. Antes que ela pudesse dar o primeiro passo para trás, o som de passos pesados ecoou na escada de ardósia, logo atrás dela.

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