sábado, 20 de junho de 2026

Capítulo 3: O Império das Pedras


Se a varanda da frente era o palco das aparências, os fundos da casa da minha avó eram o nosso território selvagem. Lá atrás, o quintal não tinha terra macia ou grama; era um oceano de pedras escuras, com formatos tão exóticos e irregulares que a nossa imaginação precisava trabalhar em dobro para criar rampas de velocidade, degraus para reinos distantes e piscinas imaginárias. Era ali que a gente tomava sol, corria descalço desafiando os cortes nos pés e se banhava na água gelada da bica.

No coração desse império de pedra, reinava o pé de goiaba. Ele era enorme, imponente e misterioso. Curiosamente, não guardo na memória o gosto ou o formato das suas goiabas; lembro-me, sim, dos seus ramos sempre fartos, do perigo miúdo das lagartas escondidas sob as folhas e do zumbido tenso dos marimbondos que nos faziam prender a respiração.

O pé de goiaba era também o nosso termômetro de poder. No pique-alto, os primos da primeira remessa subiam com a agilidade de gatos até os galhos mais altos, conquistando o céu e o direito de ver a rua por cima do muro. A nós, os pirralhos da última leva, restava o sofrimento morno da sombra.

Eu habitava um silêncio duplo. Ficava à margem das brincadeiras dos mais velhos e distante das conversas dos adultos na cozinha, sob o eterno pretexto de que 'criança não devia ouvir certas coisas'. Mas aquele mistério velado sempre despertou em mim uma curiosidade viva, uma vontade imensa de desvendar o que tentavam esconder.

Foi numa noite de festa junina que tudo mudou. Enquanto os primos corriam e os adultos se trancavam na cozinha com suas discussões abafadas, eu fingi me concentrar na "Maria Preta" — aquele balão feito de jornal dobrado que a gente acendia e soltava no escuro. Vi o papel pegar fogo, brilhar intensamente e subir. Mas, em vez de olhar para o céu, usei a distração do fogo para fazer o que era proibido.

Sorrateiramente, caminhei descalça pelas pedras frias, pisando exatamente nas sombras para que ninguém me visse. Eu não queria apenas a sombra do pé de goiaba; eu queria a altura. Pela primeira vez, agarrei o tronco rústico e mudei de nível. Subi um, dois, três galhos. Meu coração batia na garganta, com medo das lagartas, dos marimbondos e do castigo.

Lá de cima, escondida entre as folhas fartas, eu finalmente consegui ver além do muro. O mundo lá embaixo parecia ter se redesenhado sob os meus pés, uma vastidão proibida e fascinante que eu nunca imaginei que existisse da altura do meu chão. Mas o que eu vi na penumbra do beco lateral me paralisou.

A poucos metros de mim, perto da descida que levava ao porão trancado, duas pessoas discutiam em sussurros desesperados. Uma delas chorava. No escuro, um objeto pesado mudou de mãos, acompanhado de uma promessa que me fez prender o fôlego e que eu não deveria ter escutado. Antes que eu pudesse recuar, um dos galhos estalou sob o meu peso. Os rostos lá embaixo se viraram abruptamente em direção à árvore, e os olhos de um deles miraram exatamente onde eu estava escondida.

O reflexo da lua bateu no pulso do homem que segurava o objeto, iluminando o mostrador do seu relógio antigo. Era o mesmo relógio que, décadas mais tarde, estaria amarrado ao meu próprio pulso na solidão daquele apartamento há quilômetros de distância dali.

O reflexo da lua bateu no pulso do homem que segurava o objeto, iluminando um breve relance de metal no escuro, numa repetição ritmada que parecia contar os segundos da minha inocência e que, décadas mais tarde, seria o único som a me fazer companhia na solidão daquele apartamento há quilômetros de distância dali.







sábado, 13 de junho de 2026

Capítulo 2: Linhas de Prata


O vento do fim de tarde trazia o cheiro de mato cortado e o silêncio pesado daquele horizonte deserto, que dava pra ver o mar bem de longe. Através da porta da cozinha, a vista não oferecia o conforto das luzes de uma grande cidade; era apenas a imensidão escura de um terreno baldio a perder de vista, onde a vegetação rasteira dançava ao capricho do vento da noite. Ela ajustou os óculos e apoiou as mãos na mureta, encarando o vazio lá fora.

A sala simples, de paredes bege, já estava completamente na penumbra. Em cima da mesa, a xícara de café havia perdido o vapor há muito tempo, mas ela não se importava. Seus olhos estavam fixos no novelo de linha cinza-esverdeada que repousava sobre o sofá, meio desfeito, com uma agulha de crochê espetada bem no centro, como uma bandeira fincada em um território a ser conquistado.

Cada laçada era um nó no tempo. Enquanto puxava os pontos no silêncio, sua mente viajava por caminhos que ela tentava evitar. Ela caminhava descalça pelo piso escuro de cerâmica fria, sentindo o gelo do chão contrastar com a inquietação que subia por suas pernas. Tentava impor uma ordem geométrica ao caos daquela vida, mas a calmaria ali dentro era aparente.

Seu telefone, deitado ao lado da xícara fria, vibrou. A tela iluminou o teto branco com um brilho gélido e azulado. Não era uma notificação comum. Uma mensagem de texto piscou, enviada por um número sem identificação.

Ela hesitou, sentindo um arrepio incômodo subir pela espinha. Aproximou-se devagar e pegou o aparelho. Na tela, havia apenas uma linha de texto: “Você ainda se lembra de como se proteger no quarto canto?”

Ela encarou aquelas palavras, enquanto o silêncio da casa parecia se tornar subitamente ruidoso. A solidão daquela sala, ao invés de um refúgio, transformou-se em uma armadilha invisível. 

Sem passos, sem vozes, sem risadas, apenas o peso sufocante de uma pergunta que ela não sabia como responder, e o pressentimento inquietante de que o isolamento daquele lugar já não a protegia de absolutamente nada. O que quer que estivesse por vir, já havia começado.

sábado, 6 de junho de 2026

Capítulo 1: O Chão Vermelho


A minha infância tem a cor daquele chão vermelho, liso e tão brilhante que, se eu fechasse bem os olhos, quase conseguia ver o reflexo dos meus joelhos ralados.​ Para os adultos, aquele espaço entre a porta e o mundo era apenas a varanda da minha avó. Para mim e para os outros da minha remessa, era o nosso território sagrado, o centro do universo. 

Quatro cantos. Quatro colunas próximas umas das outras que delimitavam o nosso campo de batalha. A gente corria e gritava jogando pique-canto, mas o verdadeiro jogo que se jogava ali era outro, muito mais sutil e silencioso: o jogo das idades.

​A casa parecia imensa. Erguida sobre pedras gigantescas que teimavam em desafiar qualquer linha reta, ela mesma ditava as regras. Tudo ali era irregular — o terreno, os degraus longos que desciam para o portão lateral, o relevo que me obrigava a dar passos duplos com minhas pernas curtas. Mas nada era tão irregular quanto a fronteira invisível que nos separava.

​Havia os grandes, a primeira remessa de primos. Eles já olhavam para o portão pequeno com desejo de rua e não queriam os pirralhos por perto. E havia eu.
Eu pertencia à última classe, à faixa etária dos que precisavam correr o dobro para serem aceitos. Eu sabia exatamente o meu lugar naquela fila invisível da família. Mas no pique-canto daquela varanda, enquanto os mais velhos fingiam que eu não existia, eu fincava os meus pés descalços naquele piso frio e encerado. 

Ali, entre o formato torto das pedras e a escadaria comprida e fina que levava até a rua, eu aprendi a olhar o mundo de baixo.
Quem nasce na remessa dos últimos descobre cedo que, para ganhar a vida, primeiro é preciso dominar os quatro cantos do chão da avó. Eu dominei todos eles. Protegi minhas sombras e venci o tempo. 

Mas o tabuleiro agora é outro. E se você acha que esta é apenas uma história nostálgica sobre o quintal da infância, prepare-se: nos quatro cantos que restaram da minha vida adulta, alguém acabou de roubar a minha vez.