A minha infância tem a cor daquele chão vermelho, liso e tão brilhante que, se eu fechasse bem os olhos, quase conseguia ver o reflexo dos meus joelhos ralados. Para os adultos, aquele espaço entre a porta e o mundo era apenas a varanda da minha avó. Para mim e para os outros da minha remessa, era o nosso território sagrado, o centro do universo.
Quatro cantos. Quatro colunas próximas umas das outras que delimitavam o nosso campo de batalha. A gente corria e gritava jogando pique-canto, mas o verdadeiro jogo que se jogava ali era outro, muito mais sutil e silencioso: o jogo das idades.
A casa parecia imensa. Erguida sobre pedras gigantescas que teimavam em desafiar qualquer linha reta, ela mesma ditava as regras. Tudo ali era irregular — o terreno, os degraus longos que desciam para o portão lateral, o relevo que me obrigava a dar passos duplos com minhas pernas curtas. Mas nada era tão irregular quanto a fronteira invisível que nos separava.
Havia os grandes, a primeira remessa de primos. Eles já olhavam para o portão pequeno com desejo de rua e não queriam os pirralhos por perto. E havia eu.
Eu pertencia à última classe, à faixa etária dos que precisavam correr o dobro para serem aceitos. Eu sabia exatamente o meu lugar naquela fila invisível da família. Mas no pique-canto daquela varanda, enquanto os mais velhos fingiam que eu não existia, eu fincava os meus pés descalços naquele piso frio e encerado.
Ali, entre o formato torto das pedras e a escadaria comprida e fina que levava até a rua, eu aprendi a olhar o mundo de baixo.
Quem nasce na remessa dos últimos descobre cedo que, para ganhar a vida, primeiro é preciso dominar os quatro cantos do chão da avó. Eu dominei todos eles. Protegi minhas sombras e venci o tempo.
Mas o tabuleiro agora é outro. E se você acha que esta é apenas uma história nostálgica sobre o quintal da infância, prepare-se: nos quatro cantos que restaram da minha vida adulta, alguém acabou de roubar a minha vez.
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