sábado, 13 de junho de 2026

Capítulo 2: Linhas de Prata


O vento do fim de tarde trazia o cheiro de mato cortado e o silêncio pesado daquele horizonte deserto, que dava pra ver o mar bem de longe. Através da porta da cozinha, a vista não oferecia o conforto das luzes de uma grande cidade; era apenas a imensidão escura de um terreno baldio a perder de vista, onde a vegetação rasteira dançava ao capricho do vento da noite. Ela ajustou os óculos e apoiou as mãos na mureta, encarando o vazio lá fora.

A sala simples, de paredes bege, já estava completamente na penumbra. Em cima da mesa, a xícara de café havia perdido o vapor há muito tempo, mas ela não se importava. Seus olhos estavam fixos no novelo de linha cinza-esverdeada que repousava sobre o sofá, meio desfeito, com uma agulha de crochê espetada bem no centro, como uma bandeira fincada em um território a ser conquistado.

Cada laçada era um nó no tempo. Enquanto puxava os pontos no silêncio, sua mente viajava por caminhos que ela tentava evitar. Ela caminhava descalça pelo piso escuro de cerâmica fria, sentindo o gelo do chão contrastar com a inquietação que subia por suas pernas. Tentava impor uma ordem geométrica ao caos daquela vida, mas a calmaria ali dentro era aparente.

Seu telefone, deitado ao lado da xícara fria, vibrou. A tela iluminou o teto branco com um brilho gélido e azulado. Não era uma notificação comum. Uma mensagem de texto piscou, enviada por um número sem identificação.

Ela hesitou, sentindo um arrepio incômodo subir pela espinha. Aproximou-se devagar e pegou o aparelho. Na tela, havia apenas uma linha de texto: “Você ainda se lembra de como se proteger no quarto canto?”

Ela encarou aquelas palavras, enquanto o silêncio da casa parecia se tornar subitamente ruidoso. A solidão daquela sala, ao invés de um refúgio, transformou-se em uma armadilha invisível. 

Sem passos, sem vozes, sem risadas, apenas o peso sufocante de uma pergunta que ela não sabia como responder, e o pressentimento inquietante de que o isolamento daquele lugar já não a protegia de absolutamente nada. O que quer que estivesse por vir, já havia começado.

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