sábado, 4 de julho de 2026

​Capítulo 5: O Labirinto do Medo


Toda casa antiga erguida sobre pedras guarda um segredo subterrâneo. Na casa da minha avó, esse segredo atendia pelo nome de porão.

​Se a varanda da frente era o espaço das regras e o quintal de trás era o nosso reino de liberdade, o porão era o avesso de tudo: um local sombrio, pequeno, de teto sufocantemente baixo, que parecia exalar um odor horrível de tempo mofado.
Para mim, aquela boca escura cravada na rocha era a matéria-prima dos meus piores pesadelos.

​O acesso até ele já parecia um teste de coragem. Começava na lateral da casa, por um caminho estreito e irregular de terra e pedra. À medida que avançávamos, o corredor ia se estreitando e afundando em um declive acentuado, como se estivéssemos descendo em direção às entranhas da terra. 

Lá no fundo, no ponto mais baixo e escuro da descida, ficava a porta de ferro. Ela vivia trancada com um cadeado pesado, uma barreira intransponível para garantir que nós, os menores, nunca pisássemos ali.

​O porão era o reino exclusivo dos primos mais velhos. Eles guardavam as chaves daquele mistério, enquanto a minha avó reforçava o decreto: era proibido descer.

Na minha imaginação de menina, alimentada pelo zumbido dos morcegos que habitavam o teto e pelo pavor de qualquer criatura rastejante que pudesse cruzar o chão, o porão era um labirinto sem fim. Eu visualizava pilhas de entulho, caixas de poeira esquecidas, restos de pisos antigos de reformas que nunca terminaram e quase nenhum espaço para respirar.

​Eu nunca passei daquela porta de ferro. Nunca toquei naquelas paredes frias. Mas talvez por isso o porão tenha se tornado o lugar mais importante daquela casa na minha memória. 

Aprendi ali, espiando pelo vão do caminho estreito, que os lugares que a gente não pode entrar são exatamente aqueles que passam a morar dentro de nós. O porão da minha avó permaneceu trancado, mas a fechadura dele acabou abrindo a minha imaginação para sempre. Uma imaginação que foi alimentada por anos, até o dia em que um pequeno detalhe esquecido naquele mesmo quintal me provou que o mistério não era coisa da minha cabeça.

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