O som dos passos na escada de ardósia verde-escuro não era apressado. Era firme, rítmico, pesado. Cada impacto parecia vibrar direto no relógio de pulso do pai que ela carregava no braço esquerdo, como se o tempo estivesse cobrando uma dívida antiga.
Ela congelou diante da tela do computador. A imagem de satélite da velha casa sobre pedras piscava, e aquela frase curta — Você demorou para voltar — parecia queimar seus olhos. O suor frio agora descia pelo pescoço, misturando-se à adrenalina. Ela não tinha para onde correr. A sala do apartamento simples dava de frente para o nada, um horizonte engolido pelo breu daquele terreno baldio e silencioso. Janelas altas, sem saída. A única rota de fuga era a porta de entrada, e os passos tinham acabado de alcançar o topo do primeiro andar.
Ela engoliu em seco e enfiou a mão trêmula na pasta de couro antiga. Seus dedos se fecharam em torno da chave cega de latão. O metal, inexplicavelmente, estava fervendo.
A sombra projetada pela luz fraca do corredor bege invadiu a sala escura. A silhueta que parou no vão da porta era alta, usando um casaco escuro impregnado com o cheiro forte de maresia e poeira de estrada. O coração dela batia tão forte na garganta que ela teve certeza de que o intruso podia ouvi-lo.
— Você sempre teve mania de vasculhar o que não devia — a voz que ecoou na sala era áspera, cansada, mas terrivelmente familiar. Uma voz que ela não ouvia há anos.
Ela recuou um passo, batendo as costas contra a mesa do computador.
— Quem é você? Como entrou aqui?
O homem deu um passo à frente, saindo da penumbra. A luz da tela do monitor iluminou metade do seu rosto. Ele não respondeu com palavras. Em vez disso, ergueu o braço esquerdo e puxou a manga do casaco. No pulso dele, havia um relógio exatamente igual ao dela. O mesmo modelo antigo, a mesma pulseira gasta, o mesmo tique-taque rítmico.
Ela olhou para o próprio pulso, depois para o dele, com a mente girando em um curto-circuito absoluto. Mas a verdadeira surpresa veio quando ele estendeu a mão aberta. Na palma da mão dele, brilhava uma segunda chave de latão. Mas, ao contrário da dela, aquela chave tinha ranhuras profundas, linhas perfeitas e exatas.
— A sua abre as portas que a memória inventou — ele disse, com um sorriso enigmático que desafiava a lógica. — A minha abre o porão de ferro que você nunca teve coragem de descer. Agora, me dá a pasta. Nós precisamos voltar para a casa da vó.
Antes que ela pudesse processar o absurdo daquela frase, a tela do computador atrás dela apagou com um estalo e o apartamento inteiro mergulhou na mais profunda e absoluta escuridão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Quer o próximo capítulo? Comente aqui e seja avisado em primeira mão. Ou deixe um comentário para eu saber que você está lendo.